quinta-feira, 6 de abril de 2017

ENCICLOPÉDIA ALEGRE DE BRUXAS E SUPERSTIÇÕES - letras O e P

O
OBJECTOS. Aconselham a que nenhum objecto partido deve ser mantido em casa, na passagem de ano; eu diria mais, tudo o que tresande a partidos. Se tiver por lá uma geringonça, rua com ela!
Deve deitar fora todas as más recordações impressas, como as fotografias dos ditadores e quejandos – possivelmente trará bom augúrio para si e para o País.
Tendo em conta esta tradição, já esteve mais longe a ideia dos municípios aumentarem a taxa sobre a gestão de resíduos sólidos urbanos, bem como a taxa de protecção civil, a da conservação dos esgotos e uma outra, a criar, sobre mobiliário do ano velho fora de casa.
ORAÇÕES. De barato seguem algumas orações indispensáveis ao espantar das abominações.
Uma delas, dita ao deitar, faz com que as bruxas não se metam com o dorminhoco, o mesmo que é dizer, numa linguagem mais pueril, que se intrometam entre quem dorme e o João Pestana. E reza assim: “Oca, marnoca,/ três vezes oca;/ pé no pé, freio na boca;/ trista com trista,/três vezes trista,/ S. Pedro e S. Paulo/ e S. João Evangelista/ao redor da minha casa assista”.
Esta outra é digna de memorização: “Eu me apego a S. Silvestre/ e à camisa que ele veste,/ e ao círio pascal,/ e às três missas do Natal,/ para que nem homem nem mulher, me possam fazer mal”.
Para a colecção, mais esta: “S. Pedro, S. Paulo e S. João Evangelista/ em redor da minha casa assista;/ se alguma bruxa, feiticeira ou melgueira comigo quiser entrar,/ conte primeiro as areias do mar”.
Lá vai a última, pois o que já foi dito equivale a uma consulta com preçário muito superior ao valor da sua sobretaxa de IRS. Assim, para fazer fugir uma bruxa que se reconheça, deverá dizer-se: “Tu és ferro,/ eu sou aço,/ tu és o diabo/ e eu te embaço”.
Se julgam que isto é uma falácia, saída do bestunto deste “enciclopedista” desnorteado, experimentem ouvir uma avisada aldeã (das poucas que resistem), no exorcismo de berço de uma criança que abra a boca num bocejo: “Anjo bento, o Espírito Santo te entre pela boquinha adentro”.
Mais tarde, a mesma criança, agora já homem no Parlamento, poderá ouvir da mesma aldeã: “(marm)anjo de S. Bento, um moscardo te entre pela bocarra adentro!”.

P
PENEIRAS. São crivos para peneirar farinha ou qualquer outra substância a refinar, mas também servem como passagem de testemunho no âmbito deste enlevo do oculto.
Eu explico: quando alguém, tido com poderes de bruxaria, estiver para morrer, só finará quando lhe entregarem uma peneira; a pessoa que faz a entrega ficará com os poderes de bruxaria transmitidos pela moribunda. Esta passagem é conhecida como entrega dos “novelos do mal”       .
A principal questão – e eu coloco-a antes que me façam essa pergunta – é saber se, à falta da passagem de testemunho, a bruxa não se arrisca a ter uma vida perpétua. Digo isto porque vai ficando escasso o fabrico de peneiras. No entanto, se lerem o parágrafo seguinte (que o legislador introduziu para prevenir estas casualidades), ficarão com a resposta.
Parágrafo único – à falta de peneira, o contacto simultâneo de ambas as mãos supre a ausência do adereço.
PORTAS. Entradas pouco utilizadas pelas bruxas – e pelo Pai Natal, acrescente-se também – uma vez que preferem a forma bizarra da entrada pelos telhados e pelos buracos das fechaduras.
Suponho que também entrem pelas chamadas “portas do cavalo”, umas entradas que geralmente têm um letreiro a avisar que é para uso exclusivo do pessoal ao serviço, mas por onde entram os amigos sem senha de atendimento.
Quem não tem certezas, bem fará em ganhá-las. As bruxas entram por todo o lado, com portas ou sem elas. Com a mesma facilidade, com ou sem portas, também entram na política. Cruzes, credo!

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